sábado, 1 de dezembro de 2012

A cidade só cresce


Estou no percalço lento do fim da sorte
no espaço-tempo a dois segundos da morte
e rogo aos sete ventos da imaginação
da cria
do mito da poesia
da verdade do simbólico
humano e até extra-corpóreo.
Canto ao âmago do ser, minha dor;
aos orixás de todos os panteões –
de gregos a japoneses nos campos do Humaitá.
Salve o ser que busca e explica,
salve a dor e o que nos une.
Viva o verbo
e com ele a entranha viva do caboclo
que vive ou morre por amor
à poesia.

Óh eu, poeta pirata, pirado.
(óh eu arrogante e egoísta poeta)
Que comi o pão de hambúrguer da sociedade,
que subi e acima dos arcos dos viadutos – vi à vista.
E que desci para viver na boca do lixo
e tantas vezes bebi o sumo de catarro e merda
que nos é cotidianamente atirado na cara.

(E nus escorrem pelas sarjetas e vielas
os corpos enlouquecidos das mentes brilhantes
dos que não concordaram com a insensatez
de dentes de concreto que mastiga mentes e o que constrói.
O solitário “mais para mastigar mais ainda” e só.)

Eu poeta e sincero escravo de meus sentimentos,
que busco a ponta do mindinho do pé em mergulho no mundo
para saber de todo ser o que é ser e é sentir
no mundo. Toda brisa e perfume e fervor no plexo.

Óh eu que não sou poeta e congelo
em frente a quem amo e que é poesia.
E sem mais alguma força, só um nó
na garganta que falseia e não sabe falar;
que explode em inconsistências e deve calar –
e sufoca a palavra que ofega a fumaça do tempo.

Óh Juliana que sabe o que é do mundo
e anda por corredores encharcados a caçar ratazanas sujas
de interesses mesquinhos e ações de nojeira absoluta.
Que corre aos montes e mata um leão por dia, Óh Juliana
que é forte e chora e tem lágrimas de água de poesia;
que é da sensibilidade enrobustecida para a vida.
Óh poesia que veio Mulher,
fizeste de um menino, poeta.

Óh eu poeta que de nada sei ou vi ou cheirei do tempo –
frente à poesia, sou nó, cego
e balbucio argumentações falhas, incongruentes.
Eu que não sou nada e nunca fui, nem forte.
Frente ao absurdo, me recolho à gruta
e fio em minha roca solitária
a resposta (Poesia do que por dentro me mata).

Eu quero a força do símbolo e da poesia.
O amparo do que é sentido em comum
e contra o que é vivido em desacordo e imposto.
Eu quero dizer em verso para ver se “chagas expostas”
alguém preste atenção e paralise-se
o sistema de fome e podridão humana
refletido nas poças sujas de água e sangue e lixo das ruas.

Eu amo Juliana e a poesia que quer matar
a escravidão humana para consumo;
para produzir para explorar, não para usar.
Eu amo Juliana e as cooperativas e o simples do humano
que ama verdadeiramente e vive como índio.
Sem entender o que não é de entender –
a fome propositada em preconceito nazista
e censura deliberada a formas de interpretação do pensamento e do humano
em vielas acadêmicas e corredores de favelas.

Eu repudio as estruturas que querem
e conseguem o pior do humano para lucro, e lucram.
E lucram a pobreza dos outros para sua própria mediocridade.
Para por pura mediocridade.
Eu amo a poesia e a guerrilha no dia-a-dia e com afinco.
Sem arredar o pé pra playboizinho e ave de rapina –
maurícios que fazem leis por estarem acima delas.

Óh Grande Cidade, opulenta e vil. Trunfo civilizacional de bosta;
lar e reino dos maiores porcos políticos engravatados
que só amam a si e ao poder e odeiam Juliana e a poesia.
Tu que se ergueste trás dos montes e ordenou nossa caça;
tu que obrou calabouços e prisões para atirar amantes e loucos
e fabricou loucos, os amantes que se opunham.

Óh invejosa cidade ameaçadora de dentes de concreto.
Que sentiu-se ameaçada ao ver que andávamos despretensiosos.
Que não gosta de flores e viu que nossos beijos,
embora viéssemos pelo asfalto, eram férteis e regavam flores que brotavam
e amores que desabrochavam livros pelas esquinas.

Que soube enclausurar-nos em sua insensibilidade e pressa
e fez-nos, cegos e brutos, perdermo-nos.
E nossas mãos não mais se encontraram.
Tu que transformou-nos à vossa imagem e semelhança;
escravos uniformizados de seu maquinário e tijolos de edifícios.

Óh eu que nasci e vivo em um coração de pedra, e sou concreto.
Que vejo morrerem novinhos os sonhos
para construção de mais uma Esfinge de pedra, e sou concreto.
Eu que sou fruto de meu tempo e me cerco de armaduras e não amo.

Eu débil e inapto. Que não sei o que é nem vejo poesia; eu só tato.
Que desço ao mais fundo do mundo e me sujo de tudo,
que sou e somos e é o mundo em guerra:
Indigno sequer de lembrança!

Óh eu banido de voz e importância.
Óh ela, aprisionada a mil chibatas diárias.
Só para viver para poesia e ademais amores, não posso.
Hei de correr o mundo a dois segundo da morte,
que é nesse leito que me deito e tiro de mim a melhor arte.

De minha inconsistência e nosso amor extirpado,
Juliana, ao eterno, etéreo e perfumado amor à poesia.

Que fabrico com o beijo que dou na morte.